"Se se admiram de eu estar vivo,
Esclareço: estou sobrevivo.
Viver, propriamente, não vivi
Senão em projeto. Adiamento.
Calendário do ano próximo.
Jamais percebi estar vivendo
Quando em volta viviam quantos! quanto.
Alguma vez os invejei. Outras, sentia
Pena de tanta vida que se exauria no viver
Enquanto o não viver, o sobreviver
Duravam, perdurando.
E me punha a um canto, à espera,
Contraditória e simplesmente,
De chegar a hora de também
Viver.
Não chegou. Digo que não. Tudo foram ensaios,
Testes, ilustrações. A verdadeira vida
Sorria longe, indecifrável.
Desisti. recolhi-me
Cada vez mais, concha, à concha. Agora
sou sobrevivente.
"